Geralt mata monstro, mas o problema nunca é o monstro
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Sapkowski faz uma coisa que parece simples: pega o conto de fadas que a gente cresceu ouvindo — a bela e a fera, a branca de neve, o gênio da lâmpada, a princesa amaldiçoada — e devolve a história com política, contrato e má-fé no meio. Funciona absurdamente bem. Mas se eu vender O Último Desejo só como “conto de fadas do avesso”, eu diminuo o livro, porque a graça não está em reconhecer a referência. A graça está no que ele faz depois que a referência acaba.
Geralt de Rívia é um bruxo: um mutante treinado para matar monstros por dinheiro. O livro reúne seis contos das andanças dele, costurados por uma história-moldura em que ele se recupera de um ferimento feio num templo — e quase todo conto é um caso em que o monstro acaba sendo a parte menos perigosa da mesa.
O que segura esse livro é diálogo. Sapkowski escreve conversa como pouquíssima gente na fantasia. Geralt negociando preço com o rei Foltest pra desencantar a filha dele. Geralt sendo desmontado em público pela rainha Calanthe num banquete em Cintra. Geralt ouvindo de um elfo derrotado por que a coexistência é conversa fiada. Geralt medindo forças com Yennefer já sabendo que vai perder. As cenas de luta são competentes e secas. As de conversa são as melhores do livro.
O mal menor sempre cobra depois
“O Mal Menor” é o conto de Blaviken, e eu acho que ele sozinho paga o livro. Um feiticeiro pede proteção, uma mulher caçada pede justiça, cada um chama a própria causa de mal menor — e Geralt, que insiste que não escolhe entre males, termina escolhendo. Não vou contar o desfecho, mas é desse conto que sai o apelido “Carniceiro de Blaviken”, então dá pra imaginar que ninguém sai aplaudindo. Sobra conta pra pagar.
O resto do livro orbita essa mesma pergunta com figurino diferente. Fera dona de castelo com hospitalidade agressiva. Rainha armando casamento na ponta da espada. Elfos famintos no fim do mapa. Gênio pescado no rio por engano. Em todos, o contrato importa mais que a espada — e é no conto que dá título ao livro, o do gênio, que entra Yennefer, a feiticeira que vira o eixo da vida do Geralt dali em diante. Sobre o desejo em si eu não falo, porque contar qual foi estraga o melhor momento do conto. Se estiver chegando perto desse final, pare de ler resenhas.
Agora a parte que talvez me renda briga: eu não acho que “A Voz da Razão”, a história-moldura que costura os contos, funcione bem. Muito fã trata essa costura como o grande achado do livro, e eu entendo o argumento — ela apresenta a Nenneke, dá um chão emocional pro Geralt convalescente. Mas na prática ela corta o ritmo: toda vez que um conto termina forte, a moldura entra devagar, filosofando, e a gente fica esperando o próximo caso começar. Vamos dizer assim: é a parte que eu leria em diagonal numa releitura. Pode me xingar.
Pra quem é — e pra quem larga no segundo conto
É pra quem gosta de fantasia com moral cinzenta e de gente esperta conversando. É pra quem chegou pelos jogos ou pela série e quer ver de onde saiu tudo — e vai encontrar um tom mais irônico e mais adulto do que esperava. E é ótimo pra quem anda sem paciência com tijolos de oitocentas páginas, porque são contos: dá pra ler um por noite.
Não é pra quem quer mapa, apêndice, sistema de magia explicadinho, trama épica contínua. Isso aqui é episódico por natureza, e quem for esperando um romance fechado vai estranhar. Também não é pra quem precisa de herói admirável: Geralt cobra pelo serviço e faz piada na hora errada. É outro tipo de protagonista.
Blaviken não me largou mais: a ideia de que o mal menor existe, só que ninguém avisa o preço na hora — a fatura chega depois, com juros e com plateia. Eu ainda estou decidindo se concordo com a escolha que o Geralt fez lá. E dizem que em A Espada do Destino, o volume seguinte, essa conta continua rolando. Vou ler pra conferir.
