O Senhor dos Anéis é lento, e eu acho que é por isso que ele fica
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O Senhor dos Anéis tem uma fama tão grande que a gente acha que já sabe o que vai encontrar — e mesmo assim o livro consegue ser diferente do que a gente espera. O contexto que precisa é pouco: é um romance só, publicado em três volumes — A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei —, em que Frodo, um hobbit, herda de Bilbo um anel que se revela a arma mais perigosa do mundo, e a única saída é destruí-lo no único lugar onde ele pode ser destruído, do outro lado do mapa. O resto do livro é a distância entre esses dois pontos. E o livro faz questão de cada quilômetro.
E aqui eu vou ser sincero: as primeiras cem páginas quase me derrubaram. Festa de aniversário, caminhada, canção de estrada, mais caminhada, e um sujeito chamado Tom Bombadil que fala cantando e não leva nada a sério. Eu acho que o Bombadil podia sair do livro inteiro sem deixar buraco, e eu sei que fã antigo não perdoa quem escreve isso. Só que aqui a gente precisa de um cuidado, porque foi exatamente nesse trecho lento que o livro me pegou sem eu perceber: quando o perigo chega de verdade, o Condado já não é cenário de abertura, é um lugar que a gente conhece, com cerca, vizinho fofoqueiro, correio, horário de fechar taverna. O medo das páginas seguintes só funciona porque a paz veio antes, em dose exagerada. Tolkien sabia o que estava fazendo. Eu é que não sabia ler.
Isso me leva ao ponto seguinte, que é a diferença entre mundo pintado e mundo construído.
Tem fantasia que é cenário de papelão: existe só no pedaço que a câmera aponta, atrás não tem nada. Tem fantasia que é maquete: bem feita, admirável, mas a gente sente a cola, sente que cada peça foi posta ali pra servir a trama. E tem fantasia que é lugar — existia antes de a história começar e fica existindo depois que ela acaba. O Senhor dos Anéis é a terceira. A árvore com nome próprio. A ruína de três mil anos que ninguém explica por inteiro. A canção que o personagem canta porque naquele povo se canta, não porque o enredo precisa dela. A genealogia de hobbit que não muda nada na trama. Num texto meu, eu cortaria tudo isso por não trabalhar. No livro, é justamente o que não trabalha que sustenta o resto. Ainda estou digerindo essa.
Por isso eu não recomendo esse livro pra qualquer um, e não acho que isso diminua ele. Quem mede leitura por acontecimento por página vai sofrer — e vai sofrer em dobro em As Duas Torres, quando a história se parte em duas e o livro passa centenas de páginas com metade dos personagens antes de voltar pra outra metade. Eu não acho que largar o livro aí seja fracasso de leitor; é sinal de que a pessoa pegou o livro errado pra hora errada. Esse aqui é pra quem tem gosto pela espera, pra quem gosta de sentir que o autor sabe muito mais do que está contando, pra quem abre o mapa da guarda do livro no meio do capítulo, pra quem lê apêndice por vontade própria. Pra quem quer ritmo, o mercado tá cheio de fantasia rápida e boa. Este livro anda no passo de quem vai a pé.
O que ficou comigo depois de fechar o terceiro volume não foi batalha nenhuma. Foi o Sam. Daqui pra frente eu só digo que o livro continua depois de onde os filmes param, e que a vitória custa mais do que a gente esperava, inclusive pra quem venceu. O herói que o livro escolhe não é rei nem mago: é um jardineiro que foi porque o patrão foi, e que segura o mundo na teimosia e na lealdade. E que fique claro: o sofrimento dele não enobrece nada, o livro nunca diz isso; é que alguém precisava continuar andando, e ele era o que estava ali. Terminei com uma pergunta que o texto insinua e não fecha: se dá pra alguém voltar inteiro de uma coisa dessas. Ainda estou ruminando. E os apêndices eu ainda não terminei.
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