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Café e Prosa
Capa de Red Rising

Prosa · Red Rising, de Pierce Brown ·

Me venderam o Red Rising errado

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Me venderam Red Rising como “Jogos Vorazes em Marte, só que adulto”, e eu acho que essa é a pior propaganda que já fizeram pra um livro bom, porque ela promete um ritmo que o Pierce Brown não tem a menor intenção de entregar nas primeiras cem páginas. O começo é lento. Lento de testar paciência.

Mas lento não é defeito automático. Essas cem páginas nas minas de Marte são o alicerce de tudo que o livro faz depois, e quando eu percebi isso — bem depois de ter reclamado — a lentidão mudou de figura.

Pra situar quem chegou agora: Darrow é um Vermelho, a casta mais baixa de uma sociedade organizada por cores, e mina hélio-3 no subsolo de Marte acreditando que prepara o planeta pros colonos do futuro. Quando descobre que a superfície foi terraformada há séculos e que a vida dele inteira é propaganda, acaba recrutado pelos Filhos de Ares, um grupo rebelde. O plano: reconstruir o corpo dele, infiltrá-lo entre os Dourados — a casta que manda — e apodrecer a Sociedade por dentro.

O livro que me venderam não existe

A comparação com Jogos Vorazes existe porque boa parte da história se passa no Instituto, a escola onde os herdeiros Dourados disputam poder, e porque lá dentro morre gente. Mas a semelhança acaba aí. O Instituto não é arena de reality show com plateia; é guerra de campanha, com cerco, fome, inverno, deserção, traição entre aliados. Menos arena, mais Roma.

Um aviso: vou tocar agora num acontecimento do primeiro terço, então se quiser zero informação, pula esse parágrafo. O Instituto começa com um rito chamado Passagem, e o que a Passagem exige de Darrow contamina tudo que vem depois — a partir dali nenhuma vitória dele é limpa, e o livro sabe disso o tempo todo. É esse peso que segura a segunda metade.

E aqui eu vou ser sincero, mesmo sabendo que fã da saga odeia ouvir isso: eu não acho que a Eo, a esposa do Darrow, funciona como personagem. O que acontece com ela está no comecinho e em qualquer sinopse de editora, então não estou revelando nada: ela morre pra virar símbolo. O problema é que a gente convive com ela por pouquíssimas páginas, e o livro inteiro depende emocionalmente desse luto. O pedido que ela deixa pro Darrow — viver por algo maior do que ela — carrega o enredo sozinho. A personagem atrás do pedido, não.

O elenco do Instituto compensa. Sevro, Cassius, Mustang, o Chacal. Coadjuvante bom é o que mais falta em saga juvenil, e o Sevro sozinho justifica o ingresso.

Pra quem é — e quem vai passar raiva

É pra quem gosta de história de infiltrado, aquele sufoco constante de estar a uma frase de ser descoberto, e de ficção científica em que a engenharia social importa mais que a nave. Quem gostou de O Jogo do Exterminador tem boa chance aqui.

Vai dar BO pra quem precisa simpatizar com o protagonista, porque o Darrow é arrogante e calculista, e os erros dele custam vidas de gente que confiou nele. Também não recomendo pra quem exige ciência rigorosa: a física do livro é cenário pintado, e eu não acho que isso estrague a experiência, mas conheço leitor que trava nisso e larga.

Fechei o livro pensando no disfarce, não na revolução. Pra destruir uma elite por dentro, o Darrow precisa primeiro aprender os códigos dela, os afetos dela, e não existe intimidade fingida por tanto tempo que continue cem por cento fingida. O livro vai apertando essa pergunta — quanto de Vermelho ainda sobra nele — e o primeiro volume não responde.

Me disseram que Golden Son, o segundo, é melhor que o primeiro. Eu desconfio de continuação que “é melhor”. Ainda não tirei a prova.

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