Quarta Asa é uma máquina de virar página, e eu não acho que isso seja pouco
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Quarta Asa chegou com o tipo de fama que a gente aprende a desconfiar: fenômeno de BookTok, dragão na capa, todo mundo jurando que é o melhor livro dos últimos anos. A gente já viu esse filme, quase nunca é. Peguei com o pé atrás e li esperando o momento de largar.
O momento não veio.
Duas frases de contexto, porque sinopse longa mata resenha: Violet Sorrengail tem vinte anos e passou a vida inteira se preparando pra ser escriba, igual ao pai, até a mãe, general, mandar ela pro quadrante dos cavaleiros de dragão de Basgiath — uma academia de guerra onde boa parte da turma morre antes de se formar, começando pelo primeiro dia, quando os candidatos atravessam um parapeito de pedra no alto pra provar que merecem entrar. O corpo da Violet é frágil: articulações que saem do lugar, ossos que quebram à toa, uma condição crônica que a Rebecca Yarros, aliás, conhece de dentro, porque vive com uma parecida.
O ritmo é o produto. E o produto é bom. A engenharia é essa: capítulo curto, cada um fecha abrindo um problema novo, e a morte ali é barata de um jeito que muda o peso de tudo. A aula de voo importa porque cadete cai. O duelo importa porque duelo mata. O nome do colega importa porque amanhã ele pode virar nome lido na chamada dos mortos. Quando qualquer personagem pode sair da história, a gente lê cada cena segurando o livro com mais força, e a Yarros sabe disso e usa sem dó. Os dragões ajudam muito: Tairn, o dragão mal-humorado que se vincula à Violet, é disparado quem mais me divertiu — sarcástico, cansado, sem paciência nenhuma pra drama de humano. Acho que ele sozinho paga a leitura.
Agora o outro prato da balança. A prosa é funcional no melhor dos casos, os diálogos soam como conversa de aplicativo de mensagem dentro de um mundo medieval, e a construção desse mundo é fina: a economia, a geografia, a política — tudo existe na medida exata em que o enredo precisa, e nada além. Quem for procurar a densidade de um Tolkien vai largar no capítulo cinco, e vai estar certo em cada argumento.
E não dá pra fugir desta: eu não acho que o romance entre a Violet e o Xaden seja bom. Ele é o filho do líder de uma rebelião que a família dela ajudou a esmagar, é o superior direto dela, é bonito, é perigoso, e a partir daí cada passo acontece exatamente na página em que a gente espera. A parte mais fraca do livro é o casal — e foi o casal que vendeu o livro. O que segura essas cenas é a moldura de medo em volta delas, não a relação em si.
Tem três tipos de livro, vamos dizer assim: o que a gente respeita e não termina, o que a gente termina e esquece, e o que a gente não consegue largar e depois fica sem saber direito o que fez com aquelas horas. Quarta Asa é do terceiro tipo, e não pede desculpa por isso. Ele é pra quem cansou de abandonar livro no capítulo três, pra quem gosta de fantasia mas cansou do tijolo de novecentas páginas com glossário, pra quem leu Sarah J. Maas e quer a próxima dose. Ele não é pra quem lê pela frase, nem pra quem se irrita com anacronismo, nem pra quem vai medir o livro por uma régua que ele nunca se propôs a alcançar.
Do último ato, uma frase e paro: o livro que a gente acha que está lendo não é o livro que a gente está lendo. A academia é cenário, não assunto. E o capítulo final troca de voz de um jeito que reabre tudo o que parecia resolvido.
O que ficou comigo depois não foi o casal, nem a reviravolta. Foi uma decisão pequena da autora: o corpo da Violet não é consertado em momento nenhum. Não tem cura mágica, não tem prêmio por aguentar calada. Ela só recalcula o tempo todo — veneno onde não tem força, preparação onde não tem músculo, aliança onde não tem tamanho. Eu esperava que o livro fosse transformar a fragilidade dela em troféu, que é o caminho fácil. Não transformou.
Terminei faz tempo suficiente pra notar uma coisa: eu ainda penso no Tairn de vez em quando, e no Xaden nunca. O segundo volume continua fora do meu carrinho. Ainda não sei o que fazer com essa informação.
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