Heróis do Olimpo é maior que Percy Jackson — e é aí que ele tropeça
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Terminei os cinco livros de Heróis do Olimpo convencido de que o Rick Riordan quis escrever uma coisa maior que Percy Jackson e os Olimpianos: mais personagens, mais mitologia, dois acampamentos em vez de um, uma guerra que atravessa o Atlântico. Mas maior não quer dizer melhor, e essa série passa cinco livros provando as duas metades da frase.
Juno troca dois heróis de lugar: Percy acorda sem memória na porta de um acampamento romano que o lado grego nem sabia que existia, e Jason Grace, um romano, aparece no Acampamento Meio-Sangue na situação espelhada. Gaia, a Terra em pessoa, está despertando, e uma profecia exige sete semideuses — gregos e romanos juntos — pra segurar isso.
Roma resolve um problema que eu nem sabia que a série tinha
A melhor ideia da série é o Acampamento Júpiter. Os deuses são os mesmos, mas a versão romana é outra criatura: disciplina no lugar de afeto, legião no lugar de chalé, política de senado no lugar de fogueira, um Marte que quase não lembra o Ares que a gente conhecia. O que ficou comigo depois do último livro foi isso — a ideia de que um deus muda conforme quem olha pra ele, de que a mesma força é caos pra um povo e ordem pra outro. Acho que é o conceito mais adulto que o Riordan já colocou numa série infantojuvenil.
A ressalva vem colada: esse conflito rende mais nos dois primeiros livros do que no resto. Quando os acampamentos finalmente se enxergam, a história vira uma corrida de obstáculos pela Europa e a tensão grego-romana fica de pano de fundo, sustentada quase sozinha pelo Otávio, que é um vilão de corredor de repartição — perigoso de verdade, mas pequeno. Funciona. Só rende menos do que prometia.
Sete narradores é gente demais na cozinha
A série abandona a primeira pessoa do Percy e passa a alternar narradores em terceira pessoa: os sete da profecia, mais dois no livro final. E aqui eu vou ser sincero: eu não acho que todo mundo merecia microfone. O Leo Valdez carrega o humor da série nas costas. A Hazel e o Frank trazem dilemas que eu leria em livro próprio. O Nico di Angelo, que nem faz parte dos sete, atravessa o arco mais corajoso que o Riordan tinha escrito até ali — e não vou dizer qual é. Já o Jason e a Piper existem mais pra fechar a conta da profecia do que porque a história precisava deles, e cada capítulo dos dois é um capítulo em que o livro passa longe de onde eu queria estar.
Quem não quiser saber nada do miolo da série, pula este parágrafo. O final de A Marca de Atena manda dois personagens pro Tártaro, e a travessia deles em A Casa de Hades é, disparado, o melhor trecho dos cinco livros: o Riordan escrevendo mais escuro do que costuma se permitir, sem perder o humor que segura o leitor.
Agora a parte que vai me render briga com fã: eu não acho que O Sangue do Olimpo entrega o que os quatro livros anteriores prometeram. Sem detalhar o desfecho: a vilã que a série inteira passou construindo é despachada com uma pressa que briga nenhuma de meio de livro teve, e sobra a sensação de que o Riordan tinha mais história do que página. Deu BO no acabamento.
Pra quem é: quem leu os cinco primeiros e quer ver esse mundo dobrar de tamanho, e quem tem paciência pra cinco volumes que terminam todos com gancho. Pra quem não é: quem nunca leu Percy Jackson — metade do peso emocional vem de lá, e começar por aqui é chegar no reencontro sem conhecer ninguém da turma — e quem lia pelo Percy narrando em primeira pessoa, porque essa voz ficou na série antiga.
O que eu ainda não resolvi é o saldo da troca: a série ganhou mundo e perdeu voz, e eu mudo de lado nessa conta dependendo de qual livro me vem à cabeça primeiro. Uma hora eu releio e tiro a prova.
