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Café e Prosa

Prosa · O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu ·

O melhor personagem deste livro é uma lei da física

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O livro abre em 1967, no meio da Revolução Cultural chinesa, com um professor de física sendo espancado até a morte num palco, na frente de uma plateia, porque se recusou a negar a teoria da relatividade. A filha dele, Ye Wenjie, assiste no meio da multidão. Tudo o que acontece no resto do livro — a parte alienígena inclusive — nasce dessa cena. Acho essa a decisão mais corajosa do Cixin Liu: uma ficção científica que passa os primeiros capítulos sem nave e sem física exótica, só política e gente destruindo gente. E sustenta.

A sinopse que dá pra contar sem estragar nada: décadas depois, cientistas do mundo todo começam a se matar e experimentos fundamentais passam a dar resultado aleatório, como se as leis do universo tivessem parado de valer. Wang Miao, pesquisador de nanomateriais, é puxado pra investigação e encontra dois fios soltos: um jogo de realidade virtual que simula um planeta com três sóis e um programa militar secreto dos anos 60 chamado Costa Vermelha. Os dois fios são o mesmo fio.

O sol nascer amanhã é estatística, não garantia

O problema dos três corpos do título é um problema real de mecânica celeste: dois corpos orbitando um ao outro têm trajetória previsível; três corpos, não — não existe solução geral, só aproximação. O Liu pega isso e pergunta o que acontece com uma civilização evoluindo num planeta preso entre três sóis. As eras estáveis duram o bastante pra civilização florescer, e então vem uma era caótica. Sol demais, queima tudo. Sol de menos, congela tudo. Deu BO, recomeça do zero. Dentro do jogo a gente assiste a esse ciclo se repetir, de Mozi a Newton, até Qin Shi Huang montando um computador feito de trinta milhões de soldados acenando bandeirinhas. É a melhor sequência do livro, com folga.

Acho que é a ideia-motor mais forte que eu já encontrei em ficção científica: a física do cenário é a trama, não o pano de fundo. Só que aqui a gente precisa de um cuidado. Livro de ideia cobra um preço, e o preço são os personagens. O Wang Miao, teoricamente o protagonista, é uma câmera com pernas; os diálogos científicos têm cheiro de aula; a única pessoa que soa viva é o Da Shi, um policial grosseiro que fuma demais, desconfia de qualquer teoria e resolve na prática o que os físicos não conseguem resolver no quadro. Não por acaso, é o personagem que todo mundo lembra.

Então o recado, pra quem é e pra quem não é: quem lê por personagem vai sofrer aqui. Vida interior, romance, diálogo com som de conversa, protagonista pra torcer por ele. Não tem. O livro ganhou o Hugo de 2015, o primeiro romance traduzido a levar o prêmio, e eu acho que ganhou pela ideia, não pela prosa, que é seca e funcional até demais. Agora, quem gosta quando a ciência carrega a história — quem leu Arthur C. Clarke e sentiu falta de alguém levando ideia grande a sério — encontrou o livro certo. O próprio Liu diz que tudo o que ele escreve é imitação desajeitada do Clarke. Modéstia pela metade.

Eu entendi a Ye Wenjie

Daqui pra frente eu encosto na virada do meio do livro. Quem preferir descobrir lendo, pula pro último parágrafo.

A Ye Wenjie, a menina que viu o pai morrer no palco, cresce, vira astrofísica e acaba dentro da Costa Vermelha, uma base que procura sinal de vida fora da Terra. Antes disso ela passa por um corte raso na serra do Grande Khingan, derrubando floresta com a brigada de construção — capítulo que pesa mais do que a guerra que abre o livro. Quando o sinal enfim chega, ele vem com um aviso junto. E ela, somando o que a espécie dela tinha feito com o pai, com o país, com aquela serra pelada, decide responder mesmo assim, sabendo o que a resposta podia atrair. Eu queria deixar isso bem claro, para ninguém entender errado: eu não acho que ela fez certo. Mas eu entendi. O livro constrói a desilusão dela tijolo por tijolo, sem pressa nenhuma, e quando a decisão chega, ela é monstruosa e compreensível ao mesmo tempo. Acho que muita gente entende também e não admite em voz alta.

O que me acompanha desde então é uma desconfiança. A estabilidade que a gente chama de normal — o sol nascer, as leis valerem amanhã — é uma série histórica curta demais pra virar garantia. Quem leu o Taleb conhece o peru que confia no dono porque a comida chega todo santo dia. O planeta dos três sóis é esse raciocínio em escala de civilização, e o livro pergunta quanto da nossa física é só uma era estável comprida.

Fechei o livro sem conseguir decidir se a Ye Wenjie estava completamente errada sobre a gente, e o segundo volume da trilogia já está na fila me encarando por causa disso.

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