O Príncipe é um livro honesto com fama de desonesto
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O Príncipe foi escrito por um funcionário público demitido tentando voltar pro emprego, e acho que essa chave abre o livro melhor do que os quinhentos anos de fama que ele carrega. Maquiavel não era príncipe, não era general, não era rico: era o segundo chanceler de Florença, catorze anos de serviço, até os Médici voltarem ao poder em 1512 e o colocarem pra fora. Veio a acusação de conspiração, veio a prisão com tortura, e em 1513 ele estava confinado num sítio perto de San Casciano escrevendo o tratado que dedicou — a ironia é completa — a Lourenço de Médici, da mesma família que mandou torturá-lo. A carta de apresentação mais cara da história, vamos dizer assim.
O detalhe que mais me pegou nem está no livro, está numa carta pro amigo Francesco Vettori, de dezembro de 1513: o dia inteiro na taverna com o açougueiro e o moleiro, e à noite a roupa suja trocada pela roupa de corte pra sentar e escrever, porque não se entra de qualquer jeito “nas cortes antigas dos homens antigos”. Esse teatro de um homem sozinho não prova tese nenhuma minha. Mas é a imagem que fica.
A frase mais citada não está escrita
“Os fins justificam os meios”, do jeito que a gente repete, não aparece no livro; o mais perto, fui conferir, é o capítulo 18 dizendo que nas ações dos homens olha-se ao resultado. O que está escrito, no capítulo 15, é mais desconfortável que a frase falsa: que ele prefere perseguir a verdade efetiva da coisa em vez da imaginação dela, porque muita gente andou imaginando repúblicas e principados que nunca existiram, e que o homem que decide professar o bem em tudo se arruína no meio de tantos que não são bons. E aqui eu vou ser sincero: acho que ele está certo. Quem administra qualquer coisa, de um país a um caixa, já fez esse cálculo — a gente só costuma fazer ele calado e dar outro nome depois. Maquiavel fez por escrito e assinou. O escândalo é esse.
A cena que resume o método está no capítulo 7. César Bórgia precisava pacificar a Romanha e despachou pra lá um ministro cruel, Remirro de Orco, que resolveu a desordem na base do medo. Terminado o serviço, o ódio da província tinha um endereço — e o Bórgia fez o povo de Cesena amanhecer com o Remirro cortado em dois na praça, um pedaço de madeira e uma faca ensanguentada do lado. Maquiavel narra sem levantar a sobrancelha; o que interessa a ele é a engenharia: a crueldade terceirizada, descartada junto com o executor. Só que explicar a lógica de uma barbaridade não é aprovar a barbaridade — e o próprio livro pisa nessa linha o tempo inteiro, o que é parte do fascínio e parte do problema. Eu não acho que dá pra ler O Príncipe como quem lê receita. Dá pra ler como quem lê laudo.
O famoso “antes temido que amado” também chega pela metade na citação. O capítulo 17 diz que o ideal é ser as duas coisas; que, na falta, o temor é mais confiável, porque depende do príncipe e o amor depende dos outros; e que temido jamais pode virar odiado — e o ódio nasce sobretudo de mexer no que é dos outros, porque os homens esquecem mais depressa a morte do pai que a perda do patrimônio. Frase de quem observou gente de perto. Quinhentos anos depois, continua constrangedoramente verificável.
Metade do rio é nosso
A imagem que eu mais uso da leitura está no capítulo 25: a fortuna como rio, dona de metade das nossas ações, deixando a outra metade — ou quase — pra gente governar; e rio que devasta é rio que ninguém canalizou enquanto o tempo estava seco. Na sequência o mesmo capítulo compara a fortuna a uma mulher a ser subjugada — página que envelheceu do jeito que envelheceu. Livro de 1513 é livro de 1513.
Quem gosta de história tem aqui a Itália retalhada dos Bórgia como personagem, não pano de fundo — capítulos de três, quatro páginas, a edição inteira numa tarde. Quem chega procurando o manual de esperteza que a fama promete vai dar de cara com exército mercenário e fortaleza do século XVI; e quem precisa que o autor condene em voz alta cada coisa que descreve não vai receber esse serviço. O leitor fica sozinho com o texto, e é aí que o livro trabalha.
E tem a conta que não fecha: o mesmo Maquiavel escreveu os Discursos, obra dedicada a defender repúblicas, e tem gente séria — Rousseau incluído — lendo O Príncipe como sátira: o mecanismo do poder publicado à mostra, de propósito. Pode ser. Também pode ser só um homem competente e desempregado escrevendo pra quem podia contratá-lo. As duas leituras não cabem juntas, e o livro não ajuda a escolher.
