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Café e Prosa
Capa de O Nome do Vento

Prosa · O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss ·

O Nome do Vento me ganhou pelo som, não pela história

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O livro abre com o silêncio de uma taverna no fim da noite, e o Rothfuss diz que era um silêncio em três partes — as duas primeiras são da taverna vazia, a terceira é do homem atrás do balcão. Eu li essa primeira página duas vezes antes de seguir. Foi ali que o livro me comprou.

O homem é Kvothe. Herói de lenda, dizem que matou um rei, e agora vive escondido de taverneiro numa vila qualquer, sob outro nome, até que um escriba conhecido como Cronista o encontra e o convence a contar a própria história — três dias de conversa, um livro por dia. O Nome do Vento é o primeiro dia: a infância numa trupe de artistas, a tragédia que acaba com ela, os anos de mendigo em Tarbean e a entrada na Universidade, quase criança e sem um tostão.

Tem três Kvothes no livro, e eu acho que a graça toda está na distância entre eles. O Kvothe da lenda, que enfrentou demônios e conversou com deuses. O Kote do balcão, apagado, esperando o fim. E o menino da história, brilhante e arrogante, tomando uma por uma as decisões que vão fabricar os outros dois. O livro inteiro mora no vão entre esses três — e, como quem narra é o próprio Kvothe, a gente nunca sabe quanto da lenda ele está corrigindo e quanto está alimentando. Essa dúvida segura o livro mais que qualquer personagem.

A prosa é o motivo de ler. O Rothfuss escreve fantasia como quem afina instrumento, e as cenas de música — o pai compondo de noite, o alaúde com corda a menos, a apresentação no Eolian com a corda estourando no meio — estão entre as coisas mais bonitas que eu já li no gênero. Só que aqui a gente precisa de um cuidado: prosa bonita segura um livro, mas não empurra. O enredo anda devagar, e, passada a tragédia, o que a gente tem é quase um romance de escola — mensalidade pra pagar, professor excêntrico, rivalidade com um colega rico chamado Ambrose que a gente aprende a odiar rápido. Quem entrar esperando guerra, mapa e exército vai achar que comprou o livro errado. Comprou mesmo.

Vou dizer uma que fã não gosta de ouvir: eu acho que a Denna, o grande amor do livro, só existe enquanto a gente aceita vê-la pelos olhos de um adolescente apaixonado. Fora desses olhos, é uma personagem rasa que a história insiste em chamar de misteriosa. A defesa de sempre é que isso é proposital, que o narrador apaixonado é o filtro. Pode ser. Mas intenção não paga o preço da página: nas partes dela, eu li mais rápido pra passar logo.

Sobre o final, daqui pra frente eu só digo o seguinte: ninguém deve esperar fecho. O primeiro dia de conversa acaba, o livro acaba junto, as pontas ficam na mesa. E a pergunta que sustenta a série continua aberta — o que esse homem quebrou para virar o taverneiro calado do começo.

Pra quem é: pra quem lê pelo prazer da frase, pra quem gosta de música e quer ver música bem escrita por escrito, pra quem aceita que uma pergunta sustente seiscentas e tantas páginas. Pra quem não é, eu empilho sem dó. Quem precisa de trama andando a cada capítulo. Quem se irrita com protagonista bom demais em tudo. Quem quer magia só de clima — a simpatia daqui tem regra, custo e conta de energia, quase física. Quem só começa série terminada.

O que ficou comigo depois foi a ideia que dá nome ao livro. Conhecer o nome do vento, ali dentro, é conhecer o vento inteiro — e o Elodin, o professor mais maluco da Universidade, passa o livro mostrando que a gente confunde saber o apelido das coisas com conhecer as coisas. Eu saí desconfiado da quantidade de coisa que eu chamo pelo nome sem conhecer de verdade. Cliente. Margem. Filho. Deus. O livro não resolve isso pra ninguém. Só deixa a suspeita plantada.

Falta o aviso que eu gostaria de ter recebido antes: a trilogia não terminou. O segundo livro, O Temor do Sábio, saiu em 2011; o terceiro está prometido desde então e até hoje nada — pelo menos eu não encontrei nada que pareça data de verdade. Começar o segundo sabendo disso é entrar numa fila que pode não andar nunca. Por enquanto eu tô só olhando a fila.

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