O Dan Brown me passou a perna — e eu deixei
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O Código Da Vinci é um livro mal escrito. Mal escrito no sentido técnico da coisa — a prosa é dura, os personagens explicam um pro outro coisas que os dois já sabem, e o Robert Langdon consegue parar no meio de uma fuga da polícia francesa pra dar uma aula de simbologia. Mas mal escrito e ruim não são a mesma coisa. Eu li o livro em três dias. Três dias.
O curador do Louvre, Jacques Saunière, aparece morto na Grande Galeria e deixa uma trilha de códigos pro simbologista Robert Langdon e pra criptógrafa Sophie Neveu, neta dele. Os dois passam o resto do livro fugindo do capitão Bezu Fache enquanto seguem essa trilha, que aponta pra um segredo que a Igreja teria guardado por dois mil anos. É isso. O resto é enigma atrás de enigma.
Mal escrito não é a mesma coisa que ruim
O que o Dan Brown sabe fazer, e sabe fazer melhor do que muita gente que escreve melhor do que ele, é ritmo. São 105 capítulos num livro só, quase todos de três, quatro páginas. Capítulo curto. Gancho no final. Corte pra outro personagem. Outro gancho. Volta pro primeiro. A estrutura é de novela das nove, e eu digo isso sem deboche nenhum: novela segura milhões de pessoas todo dia, e segurar gente é uma técnica que a literatura séria às vezes finge que não precisa aprender.
Acho que a gente — eu incluso — gosta de fingir que está acima desse tipo de truque. Não está. Eu via o gancho sendo armado no fim de cada capítulo, sabia exatamente o que o livro estava fazendo comigo, e virava a página mesmo assim.
Agora, o preço desse ritmo aparece nos personagens. A Sophie Neveu é criptógrafa da polícia francesa, é a segunda pessoa mais importante do livro, e mesmo assim funciona quase o tempo todo como uma função do enredo: faz a pergunta certa na hora certa pra alguém responder com uma explicação. O Silas, o monge albino do Opus Dei, tem um passado contado em flashback que é honestamente o trecho mais humano do romance — e ele é o assassino. Personagem, aqui, é peça de tabuleiro. O tabuleiro é que é bom.
A página que diz “FATOS”
E aqui eu vou ser sincero: acho que o Dan Brown foi desonesto na abertura do livro, e acho que uma parte do sucesso vem exatamente dessa desonestidade. Antes do prólogo existe uma página chamada “Fatos”, afirmando que o Priorado de Sião é uma organização real fundada em 1099 e que todas as descrições de arte, arquitetura e rituais no romance são precisas. Uma página dessas muda o contrato com o leitor: ela manda ler ficção como se fosse história.
E funciona — funcionou comigo. Quem não leu e não quer saber nem a tese central, melhor pular este parágrafo, porque a partir daqui eu encosto nela. Lá pela metade, o historiador Leigh Teabing senta a Sophie na frente de uma reprodução da Última Ceia e apresenta a teoria sobre Maria Madalena e o Santo Graal que virou o assunto do livro no mundo inteiro. Eu saí da leitura repetindo a versão do Teabing sobre o Concílio de Niceia como se fosse fato, e fui descobrir depois, conferindo em outro lugar, que o Teabing conta errado — a divindade de Jesus não foi inventada numa votação apertada em 325, aquilo já era discussão antiga na Igreja. O livro me passou a perna nesse ponto. E eu deixei.
Então, pra quem é este livro: pra quem quer um thriller que compete de igual pra igual com o celular, pra quem gosta de anagrama, código, quebra-cabeça com museu de cenário. Pra quem não é: pra quem precisa de personagem com vida interior, pra quem se irrita com aula expositiva no meio da perseguição. E, principalmente, não é pra quem vai sair citando o livro como fonte — se a página dos “Fatos” convence, o problema deixa de ser literário.
O que ficou depois de ler, pra mim, foram duas coisas. A primeira é técnica: passei a reparar em gancho de fim de capítulo em tudo que leio, e a admitir que ritmo é uma habilidade separada de estilo — dá pra ter uma sem a outra, e o Dan Brown é a prova nos dois sentidos. A segunda é um desconforto: se um romance de aeroporto me fez acreditar em história falsa usando uma página de abertura e um personagem carismático, quantas outras coisas eu repito por aí que entraram na minha cabeça do mesmo jeito? Essa eu ainda não resolvi.
Tenho Anjos e Demônios na fila e ainda não decidi se o truque aguenta uma segunda rodada da mesma fórmula.
