Pular para o conteúdo
Café e Prosa
Capa de As Crônicas de Nárnia

Prosa · As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis ·

Nárnia é melhor quando o Lewis esquece o recado que veio dar

Esta resenha tem link de afiliado da Amazon: comprando por ele, o Café e Prosa recebe uma comissão, sem custo extra pra você. Como participante do Programa de Associados da Amazon, sou remunerado pelas compras qualificadas efetuadas.

As Crônicas de Nárnia têm fama de livro pra criança, e são mesmo — a diferença é que o Lewis escreve pra criança sem falar de cima. Essa é a primeira surpresa da série. A sinopse que precisa é curta: durante a guerra, quatro irmãos — Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia — vão morar na casa de um professor velho no interior da Inglaterra, e a caçula atravessa um guarda-roupa e sai num país onde os bichos falam e uma feiticeira mantém um inverno permanente, sem nunca deixar chegar o Natal. Os outros seis livros entram e saem desse país por outras portas, com outras crianças, séculos narnianos adiante. A porta muda. A pergunta do outro lado é sempre a mesma.

O que me ganhou foi a concretude. O Lewis convence pelo detalhe físico: o pelo dos casacos virando galho de pinheiro dentro do guarda-roupa, o manjar turco enjoativo com que a feiticeira compra o Edmundo, a Sra. Castor que, com a feiticeira no encalço, ainda quer saber se dá pra levar a máquina de costura. E o Edmundo é o personagem mais verdadeiro do primeiro livro: ele não entrega os irmãos por maldade de vilão, entrega por doce, por birra de irmão do meio, por vontade de mandar em alguém. Deu BO, claro — de um tamanho que ele não imaginava, e eu paro por aqui: o preço dessa traição é a cena mais importante do livro.

No centro de tudo está Aslan, o leão, e a frase que resume a série inteira o Sr. Castor diz antes de a gente conhecer ele: seguro ele não é; mas é bom. Eu acho que essa distinção vale o livro sozinha, e funciona pra qualquer leitor, com fé ou sem. Só que aqui a gente precisa de um cuidado. O Lewis era apologista cristão, e Nárnia é o cristianismo dele em forma de história — isso não é interpretação minha, ele mesmo assumia. Quando ele confia na imagem, a alegoria nem incomoda: é história boa que carrega o que carrega. Quando ele desconfia da história e para tudo pra garantir que a gente entendeu o recado, vira catecismo com bicho falante — e eu acho que no último livro isso acontece por capítulos inteiros. Sei que pra muito leitor cristão é ali que a série se completa. Pra mim foi onde ela menos parece bosque e mais parece púlpito.

E eu queria deixar isso bem claro, para ninguém entender errado: a implicância não é com a fé do Lewis. Sem ela não existiria Aslan, e Aslan é a melhor coisa dos sete livros. A implicância é com a hora em que ele resolve legendar a própria história.

O Tolkien, que era amigo do Lewis, implicava com Nárnia por outro motivo: a mistura sem critério — fauno grego, Papai Noel, bruxa de gelo, um poste de luz aceso no meio do bosque. Eu entendo a implicância e acho que ela erra o alvo. Nárnia não é mundo construído, é conto de fadas; a lógica é de sonho, não de mapa. Quem cobrar dela a consistência de O Senhor dos Anéis (já resenhei ele aqui no blog) está cobrando de um instrumento o som de outro. São jogos diferentes.

Pra quem é, então: pra quem tem criança na idade de ouvir história, pra quem aceita narrador que conversa com o leitor, pra quem carrega alguma pergunta espiritual e não precisa que ela venha com carimbo de igreja, pra quem quer conhecer o Eustáquio — o primo insuportável do terceiro livro publicado, que o próprio texto apresenta avisando que ele quase merecia o nome que tinha. O que acontece com ele no meio da viagem é a melhor imagem de egoísmo que eu já li — só digo que envolve dormir em cima de um tesouro. Pra quem não é: quem procura sistema de magia com regra, política de corte, economia de reino, mundo que fecha as contas, vai achar os livros finos — e desse ponto de vista estão finos mesmo. Eu não acho que isso seja defeito. É o material certo de outra coisa.

Uma opinião prática: a edição em volume único ordena os livros pela cronologia interna e começa por O Sobrinho do Mago. Eu acho que é começar errado. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa foi escrito primeiro e deve ser lido primeiro: o guarda-roupa só tem o impacto que tem pra quem ainda não sabe o que existe do outro lado. Explicar a origem do poste de luz antes de o leitor se espantar com o poste é responder uma pergunta que ninguém fez.

Acabei os sete livros com uma suspeita: a de que o guarda-roupa importa menos como entrada e mais como aviso do risco de esquecer que Nárnia existe — criança lê isso de um jeito, adulto de outro. E aqui eu chego perto do fim do último livro, então quem não leu me encontra no parágrafo seguinte: o destino que o Lewis dá pra Susana — a justificativa, mais exatamente — me pareceu pequeno, quase mesquinho, destoando de tudo que Aslan tinha sido até ali. Tem leitor que defende que o ponto era esse mesmo. Eu ainda não fechei essa conta.

Se quiser ler, o link da Amazon tá aqui embaixo — comprando por ele, o blog ganha uma comissão e não custa nada a mais pra você.

Ver o livro na Amazon

publicidade

Comentários