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Café e Prosa
Capa de Musashi

Prosa · Musashi, de Eiji Yoshikawa ·

Musashi não é autoajuda de samurai

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Musashi carrega uma fama que não é dele: a de bíblia da disciplina, citado ao lado de banho gelado e de acordar às cinco da manhã. E a opinião que me custa mais caro neste texto é justamente essa: eu não acho que Musashi seja um livro sobre disciplina, e acho que quem usa ele de moldura motivacional leu o resumo. A edição brasileira, na tradução da Leiko Gotoda, passa de mil e quinhentas páginas nos dois volumes — e o que mora lá dentro é outra coisa.

O esqueleto do enredo: Takezō sobrevive do lado derrotado de Sekigahara, em 1600, vira foragido na própria aldeia e acaba capturado não por soldados, mas por um monge, Takuan, que o pendura numa árvore e depois o tranca por três anos num quarto do castelo de Himeji cheio de livros. Ele sai de lá com outro nome, Miyamoto Musashi, e passa o resto da obra na estrada, polindo o próprio caminho da espada contra as escolas do Japão inteiro, até a ilha onde espera Sasaki Kojirō. Isso é o esqueleto; o livro é a estrada entre uma coisa e outra.

O Yoshikawa escreveu isso como folhetim de jornal, capítulo a capítulo, entre 1935 e 1939, e a costura aparece: personagem que a gente deixou numa província ressurge trezentas páginas depois na estalagem exata onde o Musashi dorme, e as coincidências vão se empilhando num Japão que parece do tamanho de Santa Carmem. Só que aqui a gente precisa de um cuidado antes de rir do método, porque o folhetim que explica o defeito explica também a maior virtude do livro: a estrada nunca esfria. Em mil e quinhentas páginas eu não atravessei um trecho morto.

Nem todo mundo nessa estrada funciona igual. A velha Osugi, mãe do Matahachi, persegue o Musashi a obra inteira por uma desonra que só existe na cabeça dela, e é ao mesmo tempo cômica e assustadora — vingança como projeto de vida. Já a Otsū eu acho o ponto fraco do livro: o Yoshikawa deu a ela anos de espera, perigo, estrada, e quase nenhuma vontade que não seja o Musashi. Personagem que só existe apontada pra outro não é personagem, é bússola.

O espelho do Musashi é o Matahachi, não o Kojirō

O Kojirō é o rival oficial, técnico genial e vaidoso, feito sob medida pra antítese. Mas quem foi me incomodando de verdade é o Matahachi, o amigo que saiu da mesma aldeia, da mesma guerra perdida, do mesmo barro — e que em cada encruzilhada escolhe o atalho. Mente, adia, arruma culpado, chega a se apresentar com nome alheio pra colher fama que não plantou. O Yoshikawa podia ter feito dele um vilão; fez dele uma possibilidade. A distância entre os dois não é talento, é o que cada um faz na manhã seguinte da derrota. Essa régua serve pra gente também, e é desconfortável de segurar.

E isso me leva ao ponto seguinte, que é o motivo do título. O Musashi do livro dorme no relento e recusa conforto, sim — mas ele erra o tempo inteiro, de orgulho, de pressa, e o que o move não é aguentar mais que os outros, é se corrigir mais rápido que os outros. Tem diferença.

A lavoura desmente a leitura de banho gelado

Num dos trechos que eu mais gostei, ele larga os duelos e tenta cultivar uma terra arruinada com o Iori, o segundo discípulo. Trata a lavoura como tratava adversário: força contra força. A enchente leva tudo. Ele insiste do mesmo jeito, a água leva de novo, e a lição que ele aceita ali — plantar com o terreno, não contra ele — é o contrário exato do sofrimento como mérito. Se o livro fosse o que a legenda motivacional diz, essa cena não existiria. Ela existe e está entre as melhores.

Um aviso de leitor que confere as coisas: isto é romance, não biografia. O Musashi histórico existiu, duelou e deixou um livro curto no fim da vida, O Livro de Cinco Anéis; já a Otsū e boa parte do enredo, eu fui atrás e não achei em registro nenhum — pelo menos eu não encontrei nada. Ler o Yoshikawa como história é o mesmo erro de ler como autoajuda.

Pra quem é: quem gosta de romance de formação longo, aguenta livro-rio com dezenas de personagens e aceita que o enredo ande no passo de quem viaja a pé. Pra quem não é: quem precisa de ritmo de thriller, e quem quer o Japão do século XVII com rigor de historiador — aqui é o Japão que o Yoshikawa quis dar de presente ao leitor dele dos anos 1930, o que, aliás, renderia um texto à parte.

Sobre o desfecho, só isto, e quem quiser chegar limpo pula este parágrafo: tudo converge pra uma praia de ilha, em 1612, e o Yoshikawa gasta a véspera melhor que o golpe. O duelo mais famoso do Japão dura um instante, o livro sabe disso, e faz da espera o clímax verdadeiro. Não digo mais.

Fechei o segundo volume com uma pendência: ler O Livro de Cinco Anéis, escrito pelo Musashi de carne e osso, e medir quanto do personagem do romance sobrevive ao encontro com o autor. Ainda não li. Quando eu ler, desconfio que um pedaço deste texto não vai ficar de pé.

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