Lisbeth Salander carrega esse livro nas costas
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O título original em sueco é Män som hatar kvinnor — homens que ODEIAM mulheres, sem meio-termo. A edição brasileira amaciou para “não amavam”, e eu acho que esse amaciamento trai o livro, porque o Larsson não escreveu um suspense que por acaso encosta em violência contra mulher: cada parte do romance abre com uma estatística sueca sobre o assunto, e as cenas mais duras estão ali para dizer exatamente o que o título dizia. O título era um aviso. A tradução tirou o aviso.
Só que aqui a gente precisa de um cuidado: apesar desse peso todo, isso é, antes de qualquer coisa, um romance policial clássico — e dos bons. Mikael Blomkvist, jornalista financeiro recém-condenado por uma matéria em que ele mesmo caiu numa armadilha, aceita uma encomenda estranha de Henrik Vanger, patriarca de 82 anos de uma família industrial em decadência: descobrir o que aconteceu com Harriet, a sobrinha-neta que desapareceu em 1966 numa ilha isolada naquele dia por um acidente na ponte. No meio da investigação entra Lisbeth Salander, hacker de 24 anos tutelada pelo Estado, e é ela que a gente lembra quando fecha o livro.
Antes que alguém compre esperando thriller de aeroporto: as primeiras cem páginas são jornalismo financeiro explicado em detalhe, o caso Wennerström inteiro, e depois vem uma família com árvore genealógica e mapa da ilha impressos no comecinho pra ninguém se perder. Eu consultei o mapa mais de uma vez, sem vergonha. É o tipo de livro que é.
O sumiço da Harriet é dos melhores enigmas que eu já li
Uma ilha fechada por acidente, uma menina de dezesseis anos que some sem corpo e sem testemunha, e um velho que há quarenta anos recebe no aniversário uma flor prensada emoldurada — igual às que a Harriet lhe dava na infância — sem remetente. Esse é o motor do livro, e ele funciona porque a investigação avança por documento: arquivo de jornal, relatório policial da época, fotografia antiga ampliada até aparecer o detalhe que ninguém tinha visto. Quem gosta de investigação de papel, sem perseguição de carro, vai se sentir em casa.
E eu queria deixar isso bem claro, para ninguém entender errado: esse livro tem cenas explícitas de violência sexual, em particular no enredo da tutela da Lisbeth, quando o tutor antigo dela adoece e entra um novo. O Larsson mostra isso pra expor um mecanismo — o Estado entrega uma mulher adulta a um guardião e não fiscaliza o guardião — e mostrar o mecanismo não é aprovar a cena. Mas a cena existe, é dura, e quem não está em condição de ler isso não deveria pegar esse livro agora. Não tem nada de errado em pular esse.
O Blomkvist é a parte que envelheceu mal
Agora a opinião que fã da trilogia odeia: eu acho que o Blomkvist é fantasia do próprio Larsson. Jornalista íntegro, corajoso, charmoso sem esforço — e praticamente toda mulher relevante do romance se interessa por ele, da sócia da revista a uma Vanger, sem que o livro ache isso estranho uma vez sequer. Num romance construído para denunciar homens que odeiam mulheres, o herói é um homem por quem as mulheres só se encantam. Conveniente demais. E eu caí nessa enquanto lia, torci por ele o tempo todo — o problema não é o personagem ser agradável, é o autor nunca cobrar um preço dele.
A Lisbeth compensa. Memória fotográfica, moral própria que não coincide com a lei, zero paciência com autoridade, uma contabilidade particular de dívidas que ela mesma cobra. Ela não é vítima esperando resgate nem justiceira de filme; é alguém que concluiu que o sistema não a protege e tirou as consequências disso. Personagem assim aparece uma vez por década.
Pra quem é: quem gosta de mistério clássico de quarto fechado esticado pro tamanho de uma ilha, de true crime, de investigação lenta que recompensa atenção. Pra quem não é: quem precisa de ritmo desde a página um, e quem hoje não quer encostar em violência sexual descrita sem cortina — repito porque é sério.
O que não me sai da cabeça veio de fora do livro: o Larsson morreu em 2004, antes de ver o primeiro volume publicado, depois de uma vida investigando a extrema direita sueca. Ele nunca soube que tinha escrito um dos policiais mais lidos do século. E ficou uma conta que eu ainda não fechei: se um livro que denuncia a violência contra mulheres pode descrevê-la com esse nível de detalhe sem, em algum grau, virar espetáculo da coisa que denuncia. Penso nisso desde que terminei — pelo menos eu não encontrei uma resposta que me convença.
