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Café e Prosa
Capa de Jogos Vorazes

Prosa · Jogos Vorazes, de Suzanne Collins ·

Eu torci pela Katniss do jeito que a Capital torce

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Jogos Vorazes carrega a fama de febre adolescente — filme, tordo estampado em tudo quanto é canto — e a fama promete uma aventura rasa com um romance de enfeite, escrita pra vender ingresso. Foi com essa má vontade que eu peguei o livro, vamos dizer assim. Eu estava errado na parte que importa.

O contexto que a gente precisa é curto. Panem, um país erguido sobre o que sobrou da América do Norte: uma Capital rica e doze distritos pobres que, como castigo por uma rebelião antiga, mandam todo ano dois adolescentes cada um pra uma arena onde só um sai vivo — tudo transmitido como entretenimento obrigatório. Katniss Everdeen, dezesseis anos, caçadora ilegal do Distrito 12, se oferece no lugar da irmã de doze. Daí pra frente é o livro.

O que me segurou não foi a arena. Foi a câmera. A Collins escreveu um livro sobre espetáculo em que o leitor senta, sem perceber, na poltrona da plateia da Capital: a gente também quer saber quem morre agora, a gente também avalia se o casal convence, a gente também vira a página com fome do próximo confronto. Enquanto a Katniss calcula cada gesto porque sabe que está sendo filmada, a gente consome o resultado do cálculo igualzinho ao público que o livro está condenando. Eu achava que estava lendo de fora, por cima disso. Hoje eu vejo que não estava.

Só que aqui a gente precisa de um cuidado. O livro não é um tratado sobre mídia; é um romance de ação em primeira pessoa, no tempo presente, com uma prosa que existe pra empurrar a página, não pra ser sublinhada. Quem for atrás de frase bonita pra guardar vai voltar de mãos vazias, e eu não acho que isso seja defeito — é escolha, e a escolha certa. Livro sobre pressa se escreve com pressa.

Três jeitos de sair do livro

Sai quem leu uma aventura: torceu, sofreu, terminou e foi dormir. Sai quem leu um romance: passou a discussão inteira decidindo se o Peeta merece a Katniss. E sai quem percebeu que estava sendo descrito o tempo todo — porque o assunto do livro é a plateia, e a plateia é a gente. Os três leram o mesmo texto. Não leram o mesmo livro.

Eu acho que boa parte de quem ama Jogos Vorazes ama pelo motivo errado — ama justamente o romance que o próprio livro passa página atrás de página mostrando ser tática de sobrevivência, ensaiada com treinador e tudo. Cada gesto de casal apaixonado rendia presente de patrocinador caindo de paraquedas na arena, e a gente suspirou junto mesmo assim. O desfile com o traje em chamas. As entrevistas ensaiadas sob as coordenadas do Haymitch bêbado. A aliança com a Rue. O beijo calculado que talvez não seja só calculado. Quando eu cheguei na parte da Rue — quem leu sabe exatamente qual parte — o livro parou de ser divertido por umas dez páginas, e não vou dizer mais que isso.

Do desfecho, daqui pra frente eu só digo que vencer não encerra conta nenhuma. A jogada final da Katniss na arena é o melhor momento do livro porque ela entende, antes de todo mundo, que a única arma que a Capital não pode confiscar é o próprio espetáculo — e usa. O resto fica pra quem ler.

Esse é um livro pra quem lê pouco e quer um que puxe sozinho — esse aqui se lê em três dias sem esforço — e pra quem quer entrar em distopia sem pagar primeiro o pedágio do 1984, que é obra de outra densidade. Adolescente, claro, também; eu só não acho que adolescente seja o teto. Agora, quem precisa de prosa trabalhada pra sentir que leu literatura, quem não aguenta narradora adolescente contando a própria fome no presente do indicativo — esse leitor vai largar no terceiro capítulo. E o problema não vai ser do livro.

O que ficou comigo depois que acabou foi o desconforto de perceber com que facilidade eu viro plateia. A Collins não resolve isso, e eu não acho que ela quisesse resolver: a Katniss sai da arena ainda presa no personagem que criou pra sobreviver, sem saber onde termina a tática e onde começa ela. Eu também fiquei sem saber. E ainda não decidi se existe jeito de assistir a esse tipo de espetáculo — o dela, o nosso — sem ser um pouco cúmplice. Esse livro deixa o televisor ligado.

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