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Café e Prosa
Capa de It: A Coisa

Prosa · It: A Coisa, de Stephen King ·

Em It: A Coisa, o palhaço é o que menos assusta

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It: A Coisa tem mais de mil páginas, e eu vou começar pelo que todo mundo acha que o livro é: um palhaço que mata criança. O palhaço existe, as crianças morrem, e mesmo assim essa descrição erra o alvo. Pennywise é a embalagem, o cartaz do filme, a fantasia de festa. O que o King construiu nessas mil páginas foi uma cidade. E a cidade me assustou mais que o palhaço.

Em Derry, uma cidadezinha do Maine, crianças somem e morrem em ciclos que voltam a cada 27 anos, obra de uma coisa que assume a forma do pior medo de quem ela caça — o palhaço é só a forma preferida. No verão de 1958, sete crianças que se apelidam de Clube dos Otários enfrentam isso e acham que venceram; em 1985, um telefonema chama os seis que foram embora de volta, porque recomeçou — e eles, que juraram lembrar, esqueceram tudo.

Tudo abre com um barquinho de papel descendo a sarjeta na chuva. O barquinho do Georgie, irmão do Bill. Pra mim, é a melhor abertura que o King já escreveu.

A cidade combinou de não ver

Entre as duas linhas do tempo, o King intercala trechos das anotações do Mike Hanlon, o único dos sete que ficou em Derry, escavando a história da cidade: o incêndio criminoso do Black Spot, o tiroteio que executou a gangue Bradley com meia cidade assistindo, e em todos os episódios o mesmo detalhe se repetindo — adulto que viu e resolveu não ver. Uma vizinha fecha a cortina. Um policial arquiva. Ninguém lembra de nada depois. Eu moro em cidade pequena e conheço esse acordo mudo sobre o que não se comenta; o King pegou o acordo e deu dente pra ele. O monstro de Derry não se esconde da cidade. A cidade é que se esconde dele.

Só que aqui a gente precisa de um cuidado, porque elogiar a construção não me obriga a defender o tamanho dela. Eu acho que It seria um livro melhor com umas duzentas páginas a menos, e sei de onde elas sairiam: da linha de 1985. As melhores partes são as crianças — o Bill gaguejando atrás do irmão morto, o Ben e a represa no Barrens, a Beverly mirando melhor que todos os meninos, o Eddie carregando uma asma que talvez nem exista — e toda vez que o livro salta pros adultos, ele esfria, vamos dizer assim. Entendo a arquitetura: o tema é o esquecimento, e sem os adultos esquecidos não existe tema. Entendi o motivo. Senti o peso mesmo assim.

E o horror que funciona quase nunca é o sobrenatural. O pai da Beverly e o jeito dele de “se preocupar muito” com a filha. O Henry Bowers, valentão que a cidade deixou crescer sem freio até virar outra coisa. A mãe do Eddie e a doença que ela plantou no filho. O farmacêutico que sabe que o remédio é água e entrega assim mesmo. O medo com maquiagem de palhaço reveza com o medo que mora dentro de casa, e o de dentro de casa ganha quase sempre. Mas o livro não é bom porque criança sofre nele — sofrimento em página é fácil, qualquer um escreve. O que segura essas mil páginas é o que os sete fazem juntos com o medo. A dor ali não edifica nada sozinha.

Pra quem é este livro: pra quem quer entender por que o King é mais que um autor de susto, e pra quem gosta de romance longo em que o lugar importa tanto quanto o enredo. Pra quem não é: quem quer o susto enxuto do cinema vai se perder nas páginas de história municipal — o filme resolve essa parte mais rápido, sem demérito nenhum. E quem não aguenta ler violência contra criança, do monstro e principalmente dos adultos, deve pular este e pegar outro King. Aqui isso não é cena isolada. É o assunto.

Aqui eu chego perto do final

Aviso dado: aqui eu encosto no desfecho de 1958, sem contar o que acontece. Existe uma cena perto do fim dessa linha do tempo, envolvendo o grupo no esgoto, que virou a polêmica permanente do livro — quem leu sabe qual é. E aqui eu vou ser sincero, sabendo que fã de King não gosta de ler isso: eu acho a cena um erro. Não pelo choque, o livro inteiro é choque; mas porque é o único momento em que o King parece não confiar na história que ele mesmo construiu. As defesas que eu encontrei falam em símbolo, em rito de passagem. Li as defesas. Não me convenceram.

Não foi o palhaço que me acompanhou porta afora, foi o esquecimento. Os sete saem de Derry e a memória vai junto, aos poucos, como quem paga pedágio pra poder ir embora — e o livro trata isso ora como maldição, ora como misericórdia, sem decidir. Eu também não decidi. Fiquei com a dúvida de quanto da infância a gente esquece porque cresceu, e quanto a gente cresce porque conseguiu esquecer. O King aposta que as duas coisas não se separam. Ainda estou ruminando essa.

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