Eragon é previsível da primeira página até a última — e eu acho que o problema não está no livro
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O Christopher Paolini começou a escrever Eragon com uns quinze anos, e esse dado aparece em toda conversa sobre o livro, ora como desculpa — pra idade que ele tinha, está ótimo —, ora como acusação — dá pra ver que foi um adolescente que escreveu. Eu não acho que sirva pra nenhuma das duas coisas. Livro publicado se defende sozinho ou não se defende.
Eragon é um garoto de fazenda que acha uma pedra azul nas montanhas perto de Carvahall, e a pedra é um ovo de dragão. Do ovo nasce Saphira, e a partir daí o Império do rei Galbatorix, que exterminou os antigos Cavaleiros de Dragão, passa a caçar os dois. O resto é estrada: um mentor chamado Brom, uma espada com dono anterior, um deserto, os rebeldes Varden esperando no fim do mapa.
A gente reconhece cada peça do tabuleiro
A crítica que todo mundo faz é que Eragon é derivativo, e não adianta fingir o contrário: é. Fazenda queimada. Mentor que sabe mais do que conta. Órfão que descobre um dom raro. Império mau sem meio-tom. É Star Wars com dragão, andando por uma geografia que deve muito ao Tolkien, e quem já leu meia dúzia de livros de fantasia enxerga o esqueleto por baixo da pele antes da página cinquenta. Só que aqui a gente precisa de um cuidado: reconhecer as peças não é a mesma coisa que não se importar com o jogo.
E aqui eu vou ser sincero: eu me importei. Acho que a gente, leitor adulto de fantasia, usa a palavra “derivativo” como um jeito elegante de não admitir que gostou. A previsibilidade do Eragon funciona como a previsibilidade de uma música pop bem construída — eu sei onde o refrão vai cair, e é justamente por isso que eu fico esperando ele cair. Fiquei esperando até o fim.
Vou mais longe: como porta de entrada pra fantasia, eu acho que Eragon funciona melhor que O Hobbit. O Hobbit pede paciência com um narrador de outra época; Eragon pega a gente pelo colarinho no momento em que o ovo choca e não solta mais. Só que essa comparação diz tanto sobre mim quanto sobre os livros — eu leio fantasia pelo movimento, e quem lê pela linguagem vai achar que eu estou falando bobagem. Pode achar. Sustento assim mesmo.
O que segura o livro por dentro é a Saphira. A ligação mental entre ela e o Eragon começa como recurso prático e vira a melhor coisa do livro inteiro: ela é irônica, protetora, mais madura que o dono em quase toda decisão — a melhor personagem da história não é o protagonista. O problema é que ela passa tempo demais escondida: toda vez que a trama entra numa cidade, a dragoa fica do lado de fora esperando, e o livro sente. O sistema de magia ajuda a compensar, porque ali feitiço se paga com a energia do próprio corpo, e passar da conta mata. Regra clara gera tensão de graça.
Isso me leva ao ponto seguinte, que é pra quem esse livro serve. Serve pra quem está começando na fantasia e quer um mapa conhecido com um dragão bem escrito em cima. Serve pro leitor adolescente, claro, mas serve também pro adulto que quer um livro que anda sem pedir licença. Não serve pra quem já cansou dos arquétipos — se “mais um órfão especial” é motivo suficiente pra fechar o livro, esse aqui não converte ninguém. E não serve pra quem exige prosa enxuta: o Paolini adjetiva demais, descreve armadura e arquitetura demais, e teve trecho em que eu pulei parágrafo de descrição sem culpa nenhuma. O livro sobrevive a isso. A prosa, nem sempre.
O que ficou depois que eu fechei o livro
Ficou a fuga a partir de Gil’ead, com a elfa Arya envenenada e o deserto de Hadarac pela frente — pra mim é o trecho em que tudo encaixa de uma vez: perseguição, veneno com prazo, magia com custo, dragoa voando baixo. E ficou uma perda no meio da estrada que eu não vou entregar aqui; só aviso que ela existe, que chega sem cerimônia, e que é o momento em que o livro para de ser só divertido. Quem for ler: quando a estrada parecer boa demais, desconfia.
A batalha final, em Farthen Dûr, na montanha dos anões, fecha este volume com um confronto que eu também não vou detalhar. Digo só que o Paolini teve a decência de não resolver tudo.
Ainda não decidi se sigo pro Eldest. Me dizem que o segundo volume é mais lento, e lentidão, num livro que vive de movimento, me preocupa de verdade — se alguém já atravessou os quatro, eu queria saber se a série sustenta o que esse primeiro promete.
