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Café e Prosa
Capa de É Assim que Acaba

Prosa · É Assim que Acaba, de Colleen Hoover ·

A frase é rasa, o soco é real

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É Assim que Acaba é um livro mal escrito que funciona. Vou explicar as duas metades. Livro que vende dezenas de milhões e domina rede social costuma ser produto antes de ser livro, então comecei a leitura desconfiando — e na frase a desconfiança se confirmou. Eu não acho que a Colleen Hoover escreve bem — o diálogo escorrega pra novela, as coincidências são grandes demais, tem capítulo que parece primeira versão. Só que aqui a gente precisa de um cuidado, porque esse livro não funciona pela frase. Ele funciona por uma armadilha, e a armadilha é boa.

O contexto que importa cabe em pouco: Lily Bloom, filha de um pai que batia na mãe, abre uma floricultura em Boston e conhece Ryle Kincaid, um neurocirurgião encantador que não quer relacionamento com ninguém. No meio da história entram os diários da adolescência dela, escritos em forma de carta pra Ellen DeGeneres, onde mora o primeiro amor, o Atlas. É isso que eu conto de enredo, e é o suficiente.

A armadilha é assim: o livro inteiro é narrado pela Lily, de dentro, e quando vem o primeiro episódio de violência a gente já passou mais de cem páginas gostando do Ryle junto com ela. Então a cabeça do leitor faz o mesmo movimento que a dela. A mão queimada no forno. A bebida. O desespero do pedido de perdão logo depois. O fato de que até ali ele era o melhor personagem do livro. Eu me peguei desculpando um agressor de ficção — eu, leitor, sem nada em jogo, fazendo de graça a conta que tanta mulher faz com a vida inteira em jogo.

Aí a armadilha fechou.

A gente costuma olhar esse assunto de três distâncias. De fora, que é onde mora a estatística e a frase pronta “eu jamais aceitaria uma coisa dessas”. De perto, que é onde a Lily passou a infância, vendo a mãe apanhar e jurando que com ela seria diferente. E de dentro, que é onde a Hoover tranca o leitor — e de dentro nada tem a nitidez que tinha de fora. Quando eu cheguei na parte em que a própria Lily se pega repetindo as desculpas que passou a infância condenando na mãe, percebi que eu tinha passado o livro respondendo errado junto. A pergunta “por que ela não vai embora” só parece simples pra quem está no primeiro dos três lugares.

E aqui eu vou ser sincero: acho que muita gente que despreza esse livro por ser “livro de TikTok” despreza sem ler, porque é mais confortável do que admitir que um livro mal escrito conseguiu o que muita literatura boa não consegue — te colocar do lado de dentro sem pedir licença.

Minha implicância séria é com a embalagem, vamos dizer assim. Capa florida, prateleira de romance, divulgação de comédia romântica. Tem muita leitora de quinze anos chegando ali esperando um casal pra torcer, e o Ryle foi construído justamente pra ser amado antes de assustar — tanto que parte do público terminou o livro defendendo ele. Só que a defesa da Hoover também existe, e eu não acho que ela seja desonesta: com capa de assunto pesado, quem mais precisa desse livro talvez nunca pegasse ele na mão. A embalagem errada é o que fez ele chegar. Eu ainda não decidi de que lado fico nessa, e desconfio de quem decide rápido.

Pra quem é: pra quem quer um livro que vira as páginas sozinho e sobra depois que acaba; pra quem já fez de boa fé a pergunta de por que ela não sai; pra quem tem adolescente lendo Hoover em casa — ler junto resolve mais que proibir. Pra quem não é: pra quem lê atrás de prosa, porque prosa aqui não tem; e pra quem saiu há pouco de uma relação violenta, porque as cenas foram escritas pra doer e doem, e ninguém precisa passar por elas sem escolher.

Do desfecho, daqui pra frente eu só digo que o título é literal — ele aparece dito dentro da história, no momento mais duro dela, e ali eu entendi pra que o livro existe. E que a nota da autora no final, contando de onde essa história veio, é o melhor texto do volume. Vale chegar até ela.

Existe uma continuação, Tudo Começa em Nós. Eu ainda não decidi se leio. Tem história que eu acho que termina mais forte sem a gente tirar a prova.

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