Pular para o conteúdo
Café e Prosa
Capa de Crônicas Saxônicas (O Último Reino)

Prosa · Crônicas Saxônicas (O Último Reino), de Bernard Cornwell ·

O Último Reino me fez torcer pelos invasores, e eu não acho que isso seja defeito

Esta resenha tem link de afiliado da Amazon: comprando por ele, o Café e Prosa recebe uma comissão, sem custo extra pra você. Como participante do Programa de Associados da Amazon, sou remunerado pelas compras qualificadas efetuadas.

O Último Reino tem fama de livro que não deixa a gente parar no primeiro volume das Crônicas Saxônicas — e a fama se justifica rápido. Inglaterra do século IX, que ainda nem é Inglaterra — quatro reinos saxões sendo engolidos um a um pelos dinamarqueses, até restar de pé praticamente só o Wessex do rei Alfredo. Uhtred, filho de um senhor da Nortúmbria, vê o pai morrer na tomada de York e é capturado ainda menino pelo dinamarquês Ragnar, que em vez de matá-lo resolve criá-lo como filho. O livro é o Uhtred velho contando essa infância dividida e tudo que veio depois dela.

A jogada que sustenta o livro é essa: o Cornwell coloca a gente do lado dos invasores. O salão do Ragnar tem risada, cerveja, navio sendo construído, deus que não cobra culpa de ninguém; do lado saxão o livro mostra padre soturno, rei doente, pecado em cima de pecado. Em poucas páginas eu estava torcendo contra o povo do próprio protagonista, e desconfio que qualquer leitor honesto admite o mesmo. Só que aqui a gente precisa de um cuidado, porque quem narra é o Uhtred velho lembrando da infância adotiva, e memória de infância feliz não é testemunha confiável — e porque o próprio livro não esconde o que esses mesmos dinamarqueses simpáticos fazem com vila, mosteiro e escravo quando a festa acaba. O Cornwell deixa a gente confortável do lado errado e depois apresenta a conta. Achei isso muito bem feito.

Wyrd bið ful āræd, o destino é inexorável. O Uhtred repete a frase o livro inteiro, e o livro trabalha pra ela merecer o peso.

Porque a vida boa entre os dinamarqueses não dura. Uma ofensa antiga, dessas mal resolvidas que ficam quietas por anos, volta numa madrugada — e deu BO, do tipo que muda o rumo da história e empurra o Uhtred pro sul, pra corte do Alfredo, o rei que ele passa o resto do livro sem conseguir respeitar nem conseguir abandonar.

E aqui vai a opinião que talvez me custe leitor: eu acho que o melhor personagem do livro não é o Uhtred, é o Alfredo. O Uhtred jovem é orgulho e vontade de ter a espada maior — funciona muito bem como olho pra gente enxergar aquele mundo, mas raramente surpreende. O Alfredo é doente, beato, cheio de culpa, fraco de corpo, e é o único homem no livro inteiro pensando em décadas enquanto todo mundo pensa na próxima estação. Toda cena entre os dois tem mais tensão que qualquer parede de escudos. Eu não acho que o Cornwell fez isso sem querer.

Pra quem é: quem gosta de romance histórico com lama e política de verdade, quem viu a série e quer a fonte, quem aceita protagonista que erra feio e não pede desculpa. Pra quem não é: quem procura fantasia, porque magia aqui não tem — se tem, pelo menos eu não encontrei nada; os deuses do livro só agem na cabeça de quem reza pra eles. Também não é pra quem precisa de prosa bonita. O Cornwell escreve direto, quase seco, e a violência vem descrita sem anestesia. Escudo, machado, lama, juramento quebrado. Quem se incomoda com isso vai sofrer cedo.

Perto do fim o livro arma uma batalha grande, e dela eu não conto nada além disto: o Uhtred fecha uma conta ali e abre outras, e a maior delas tem nome — Bebbanburg, a fortaleza que era dele por direito e ficou na mão do tio. O que ficou comigo depois de fechar o livro não foi batalha nenhuma, foi a pergunta que o Uhtred não resolve: criado por um povo, nascido de outro, ele jura pros dois e não cabe em nenhum. A série tem treze livros, e agora eu entendo o tamanho — essa pergunta não fecha em um. Se eu pegar o segundo, e acho que vou, vai ser ainda sem saber pra quem eu tô torcendo.

Se ficou com vontade, o link da Amazon tá aqui embaixo — comprando por ele o blog ganha uma comissão e não custa nada a mais.

Ver o livro na Amazon

publicidade

Comentários