Pular para o conteúdo
Café e Prosa
Capa de Corte de Espinhos e Rosas

Prosa · Corte de Espinhos e Rosas, de Sarah J. Maas ·

Eu quase larguei Corte de Espinhos e Rosas na metade

Esta resenha tem link de afiliado da Amazon: comprando por ele, o Café e Prosa recebe uma comissão, sem custo extra pra você. Como participante do Programa de Associados da Amazon, sou remunerado pelas compras qualificadas efetuadas.

Corte de Espinhos e Rosas é um livro de duas caras: a primeira metade e o último terço mal parecem escritos pra mesma leitora. Eu quase larguei na metade — e vou ser sincero, se tivesse largado, teria saído contando pra todo mundo uma opinião errada. O livro melhora. Demora, mas melhora.

A premissa cabe em três frases. Feyre tem dezenove anos e sustenta o pai falido e as duas irmãs caçando perto da muralha que separa os humanos de Prythian, a terra das fadas; num inverno ruim ela mata um lobo enorme na floresta, e o lobo era uma fada. A cobrança vem na forma de Tamlin, senhor mascarado da Corte da Primavera: pelo tratado antigo, uma vida paga a outra, e Feyre vai viver nas terras dele. É A Bela e a Fera com fadas — a autora nem tenta esconder.

A primeira metade é lenta. Lenta no concreto: Feyre anda pela propriedade, janta, pinta, desconfia de todo mundo, janta de novo, e as perguntas que importam — por que as máscaras não saem dos rostos, que praga é essa que corrói Prythian, por que Tamlin desconversa nas perguntas mais simples — ficam todas penduradas. Só que parte dessa lentidão tem função, e é justo registrar: quando a explicação finalmente chega, ela justifica lá atrás o silêncio de cada personagem. Justifica o silêncio. Não justifica o ritmo.

E isso me leva ao ponto seguinte, que é onde eu vou desagradar fã: eu acho o Tamlin um par romântico fraco. Bonito, poderoso, atormentado — e só. O Lucien, que existe pra ser escada, tem mais vida em qualquer cena do que o Tamlin no livro inteiro; e quando o Rhysand aparece, ambíguo de um jeito que o Tamlin nunca consegue ser, dá pra sentir a página ganhar voltagem. Eu não acho que a Feyre se apaixona; eu acho que a trama precisava que ela se apaixonasse, e o livro trata as duas coisas como se fossem a mesma. Pra mim, esse é o defeito mais grave da obra.

O último terço muda de cenário e de registro, e contar mais que isso estraga: a Feyre para de ser carregada pelo enredo e começa a pagar por ele, e entra em cena uma vilã que dá ao livro a tensão que vinha faltando desde a primeira página. Tem um enigma nesse trecho que eu fiquei tentando resolver junto com ela. Errei. E foi esse erro que me manteve acordado lendo, coisa que a primeira metade não tinha conseguido em duzentas páginas.

Pra quem é: quem gosta de romance no centro do palco, com a fantasia servindo de cenário, e quem quer uma porta de entrada no gênero sem encarar setecentas páginas de política e mapa. Pra quem não é: quem mede fantasia pela régua do worldbuilding. A magia aqui faz o que a cena precisa e pronto — quem vem de Tolkien ou de Sanderson vai passar raiva à toa. Também acho que não é livro pra adolescente novo, apesar da capa: já neste primeiro volume tem cena que deixa claro o público adulto, e a série só cresce nessa direção.

O que ficou comigo depois de fechar o livro foi a máscara. Quase cinquenta anos com um objeto preso no rosto, sem escolha, até ninguém lembrar direito o que era mostrar a cara — e quando isso deixa de ser detalhe de figurino na história, a imagem cresce pra fora dela. A gente também usa máscara que vai grudando; a minha era a do leitor sério que não ia gostar de romance de fadas. Ela caiu.

Todo mundo que ama a série jura que o segundo livro é outro nível, e que a história muda de figura de um jeito que eu nem devo tentar adivinhar. Vou tirar a prova. Se não se cumprir, eu volto aqui pra contar.

Se quiser ler, o link da Amazon tá aqui embaixo — comprando por ele o blog ganha uma comissão, sem custar nada a mais pra você.

Ver o livro na Amazon

publicidade

Comentários