After é mal escrito e eu li até o fim — as duas coisas importam
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Li After até o fim, e li rápido — mais rápido do que leio muito livro bem melhor. É esse desconforto que eu quero explicar. After nasceu como fanfic de Harry Styles no Wattpad, juntou centenas de milhões de leituras antes de virar livro em 2014 e depois virou franquia de cinema.
O contexto, no tamanho que precisa: Tessa Young chega à faculdade com a vida arrumada pela mãe controladora e um namorado certinho, o Noah, que ficou pra trás. Aí aparece Hardin Scott, um inglês tatuado e grosso que discute Orgulho e Preconceito e O Morro dos Ventos Uivantes na aula de literatura como quem arma uma isca. O resto do livro são os dois se destruindo, voltando e se destruindo de novo.
A herança do Wattpad está inteira na estrutura: capítulo curto, sempre fechando com um anzol, e o ciclo rodando igual. Briga. Reconciliação. Briga pior. Reconciliação mais intensa. Isso deveria cansar — e cansa, lá pela terceira volta a gente já sabe o roteiro de cor —, só que a Anna Todd doseia a recompensa no mesmo esquema que prende a Tessa no Hardin: nunca dá o bastante, nunca nega de vez. A estrutura do livro reproduz a dinâmica da relação. A gente vira a Tessa com o livro na mão.
Acho que é isso que explica o fenômeno, bem mais do que a fama de picante. A prosa em si é funcional no melhor dos capítulos.
Dizem que After romantiza relacionamento abusivo, e eu não acho — sabendo que essa opinião me custa. O Hardin está insuportável na página o tempo inteiro: grosso, ciumento, cruel com as palavras, incapaz de encerrar uma conversa sem quebrar alguma coisa. O texto não vende ele como príncipe; o trabalho de passar pano é da Tessa, e nosso, lendo e torcendo pra dar certo mesmo vendo que não tem como. E aqui vale segurar o cavalo: pra mim, adulto, essa diferença entre mostrar e endossar existe; pra uma leitora de catorze anos sozinha com o livro, talvez não exista na prática.
Perto do final existe uma revelação sobre o motivo real de o Hardin ter se aproximado da Tessa — e a partir daqui eu chego perto do desfecho, então quem quiser chegar limpo no livro salta daqui. Não digo o que é, digo o que ela faz: reorganiza tudo o que a gente leu até ali, e a única coisa que parecia sólida na história deu BO junto. É o melhor golpe do livro, guardado pra hora certa. Foi o único trecho em que eu larguei a implicância e respeitei a autora.
Entregaria pra quem lê romance new adult e aceita melodrama sem pedir desculpa, e pra quem escreve e quer estudar retenção — porque técnica de segurar leitor esse livro tem, ainda que bruta. Não entregaria pra quem perde a paciência com personagem repetindo a mesma decisão errada pela décima vez. Adolescente muito novo lendo sozinho eu também não acho que seja o caso — não por proibição, que nunca funcionou com livro nenhum, mas porque After melhora muito com alguém do outro lado pra discutir o que o Hardin é.
Saí do livro com uma pergunta sobre mim, não sobre o casal: passei mais de quinhentas páginas reclamando e virando página, e ainda não sei nomear o que me puxava — se era a história ou só o mecanismo. Tem mais quatro livros na série, e o fato de eu não ter descartado a ideia já diz alguma coisa.
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